‘Voto por procuração é cabresto moderno’

Entrevista – Áureo Braga – Presidente APCBS

 

Na próxima sexta-feira (15) os associados vão eleger seus representantes no Conselho Deliberativo da CBS Previdência, o fundo de pensão dos empregados da CSN. Concorrem duas chapas. A 1 é encabeçada por Áureo Braga, um ex-funcionário da empresa que é uma das pedras no sapato do presidente da CSN, Benjamin Steinbruch. Áureo, de 79 anos, está no conselho há 16 e presidente da Associação dos Participantes da CBS. Pela segunda vez – na primeira, em 2011, perdeu – a CSN articulou uma chapa, encabeçada por um gerente da Namisa, Luiz Carlos Gomes Beato. A principal discussão, desde que a empresa passou a tentar interferir na eleição, é o voto por procuração, tema desta entrevista com Áureo Braga. Sem este instrumento, na eleição de dois anos atrás a chapa apoiada pela empresa conseguiu uma quantidade ínfima de votos. A eleição para quem mora em Volta Redonda e nas cidades limítrofes é presencial. Quem mora em outras regiões pode votar por procuração. As urnas ficarão no antigo Escritório Central da CSN, de 8h30min.

FR – Qual a sua expectativa para a eleição da próxima sexta-feira?
AB – A expectativa é grande e a confiança também de que aposentados, pensionistas e trabalhadores vão comparecer e, maciçamente, votar numa chapa de Volta Redonda. A chapa que tenta nos tirar do conselho é formada no Brasil todo, onde o patrocinador (CSN) tem empregados. E vai trazer a procuração destes empregados.

FR – Por inúmeras vezes o senhor demonstrou discordância em relação ao voto por procuração, do qual até 2011 a empresa não se valeu para tentar eleger conselheiros. Por que?
AB – Procuração é para um cidadão que mora distante participa da votação. Ele dá o documento a um colega que venha a Volta Redonda votar. Mas não é para o patrocinador colocar os empregados em fila, pegar procuração com todos e cada chefe vir com milhares de procurações debaixo do braço para votar.

FR – A associação que o senhor preside defende que a eleição seja feita em todos os pontos onde a empresa tem representação?
AB – Apresentamos ao conselho uma proposta de reformulação do sistema eleitoral, mas a resposta foi que não se poderia fazer para esta eleição porque há um artigo na Constituição, no capítulo de Direitos Políticos, segundo o qual as regras do processo eleitoral têm que ser estabelecidas um ano antes do pleito. Mas ali está se falando de eleições políticas, de cargos públicos. O que nós queríamos é que todos os trabalhadores tivessem oportunidade (de votar) nos vários pontos onde a CSN tem empregados. Eles, sim, comparecerem e colocar o voto na urna. Não o chefe obriga-los a lhe dar uma procuração para votar por eles. Isso é o voto de cabresto moderno. Antigamente, os coronéis enfileiravam os empregados, davam a eles a cédula com o nome da pessoa que queriam que fosse eleita e ficavam assistindo eles colocarem o voto na urna. Na CBS, o chefe pega a procuração do empregado para vir colocar o voto na urna. Isso, repito, é voto de cabresto.

FR – A CSN admitiu apoiar a outra chapa e considera que a eleição é democrática. O senhor não concorda?
AB – Não. Voto democrático, a eleição democrática, é quando o cidadão tem o direito de colocar o voto espontaneamente. O sistema democrático é o voto secreto. Quando um chefe, com centenas de procurações de empregados, coloca o voto deles na urna, esse voto é aberto. Não é democrático. Na eleição passada trouxeram 1,8 mil procurações. Perderam e agora vão trazer bem mais, porque o plano de benefícios foi estendido também para a Namisa, que tem 1,5 mil empregados. E se você olha a outra chapa, verifica que os candidatos patrocinados pela CSN estão distribuídos nos vários pontos onde a empresa tem instalações justamente para pegar o voto por procuração. De Volta Redonda só tem uma pessoa, que é um aposentado da CBS. Todos da nossa chapa são de Volta Redonda. É altamente qualificada, com pessoas que entendem do assunto e dispostas a trabalhar. Lembro sempre o que aconteceu com o fundo de pensão dos trabalhadores da (companhia aérea) Varig: eles dormiram no ponto, não cuidaram de seus interesses e, quando a Varig faliu, faliu junto o fundo de pensão. Aposentados perderam a aposentadoria e quem estava na ativa perdeu todo o dinheiro que havia depositado.

FR – O senhor tem dito nos últimos dias que as pensionistas vão fazer diferença. Por quê?
AB – Eu confio nas pensionistas. Estamos lutando por elas. Confio que estarão presentes porque tem pensionista – mais de 1,5 mil – recebendo menos de R$ 100,00 por mês. E já defendemos no Conselho Deliberativo um benefício mínimo, pois é uma indignidade receber tão pouco. Confio que elas vão aparecer para nos apoiar para que possamos continuar esta luta.

AB – Por que, na sua opinião, a insistência da CSN em apoiar uma chapa?
FR – Ela tem toda a diretoria nas mãos. Tem 66%. Nós, participantes, apenas quatro representantes no conselho. Estou há 16 anos e estudo o assunto a fundo, trabalho o dia inteiro e conheço com profundidade a questão. Você acredita que uma chapa com cidadãos do Paraná, de Arcos, do porto do Rio de Janeiro vai ter condições de fazer isso? E mais: sendo estas pessoas eleitas numa chapa articulada pelo patrocinador vão ter independência para defender os trabalhadores? Não têm nem conhecimento para isso. Se a chapa é organizada pelo patrocinador, certamente ele escolheu pessoas que vão trabalhar de acordo com seus desejos. Ele quer dominar o conselho para não acontecer o que houve no ano passado, quando conseguimos evitar que rasgassem um contrato e tirassem R$ 500 milhões do fundo. O contrato era de uma dívida de R$ 543 milhões e ele trouxe para R$ 33 milhões. Fomos ao ministro (da Previdência), à Previc (Secretaria Nacional de Previdência Complementar) e ganhamos uma grande batalha, pois o ato foi considerado ilegal. Eles estão tentando reverter. Se não estivermos lá, vai facilitar a vida deles. Se as pessoas que estiverem lá não entendem do assunto e ainda são de uma chapa organizada por eles…

Fonte: Foco Regional

Posted on: Principal | Tags: Without tags

Os comentários estão desativados.