A Volta Redonda Rural, Caminhos e Descaminhos Históricos e Culturais – Capítulo 3
Capítulo 3
VIAJANDO NA HISTÓRIA DE VOLTA REDONDA E HOMENAGEM ÀS FAMÍLIAS PIONEIRAS
(O topônimo VOLTA REDONDA, decorrente da curva do Rio Paraíba do Sul, já era conhecido antes de 1800)
A presença do homem dito civilizado nas antigas terras dos índios Puris-Coroados, onde hoje é Volta Redonda, remonta a meados do século XVIII (1750) e prendia-se, fundamentalmente, à procura de ouro e pedras preciosas.
Ao final daquele século já se registrava incipiente agricultura de subsistência desenvolvida pelos povoadores pioneiros vindos da região de “Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova”, atual Resende. Porém somente nas primeiras décadas do século seguinte (anos 1800) é que, efetivamente, a região foi ocupada em definitivo pela lavoura de café e as terras de Volta Redonda, ao longo de todo o Século XIX, participaram ativamente do “Ciclo do Café” que envolveu todo o Vale do rio Paraíba do Sul (fluminense, paulista e mineiro).
Pouco após meados daquele século, por volta de 1860, em complemento e em consequência do extraordinário ciclo cafeeiro, foi formado o arraial de Santo Antônio da Volta Redonda, primitivo núcleo urbano onde hoje é o histórico bairro de Niterói, que viveu intensa atividade comercial.
Com a construção de uma ponte de madeira sobre o rio Paraíba, em 1864, e que cobrava pedágio, o porto fluvial, que já existia à sua margem esquerda, passou a escoar também a produção de café das fazendas da margem direita o que incrementou o seu movimento e ampliou o arraial sendo o café transportado até Barra do Pirai por barcaças e daí, pela Estrada de Ferro D. Pedro II, até a Corte, onde se localizava o grande porto exportador de café do Rio de Janeiro. No retorno as barcaças vinham carregadas de mercadorias diversas para as casas comerciais do arraial, para os povoados próximos, como Amparo, e para as inúmeras fazendas da região. Registre-se que o rio Paraíba era navegável por 115km entre Campo Belo, atual Itatiaia, e o povoado de Ipiranga, logo após Barra do Pirai.
A expansão desse núcleo, no espaço e no tempo, trouxe, entre outras melhorias, a instalação de uma agência de correios, de escolas, de hospedaria, de casas de comércio (taberna, armazéns de secos e molhados, depósitos e oficinas) e, como expressivo marco, a inauguração, em 1870, da Igreja de Santo Antonio, que foi demolida em 1955 e substituída pela atual.
Em 1871, não muito distante do povoado, foi inaugurada pela princesa Isabel e pelo marido, o conde d’Eu, a estação ferroviária de Volta Redonda, do ramal para São Paulo da D. Pedro II, cujo prédio original foi demolido em 1944. A chegada da ferrovia trouxe o consequente declínio do transporte fluvial.
Em 1890 o povoado foi elevado a Distrito de Paz (até 1926 o distrito foi criado e extinto várias vezes por injunções “políticas”), em 1891 foi criado o Distrito Policial de Volta Redonda e, em 1895, o primeiro cemitério na região do antigo povoado — onde depois seria o início da pista de pouso do Aero Clube — que foi ampliado em 1910 e desativado posteriormente.
Ao café sucedeu, na transição dos séculos XIX para o XX, a pecuária leiteira. Embora tenha sido economicamente uma alternativa importante, pois Barra Mansa, com o concurso das terras voltaredondenses, chegou a ser a maior bacia leiteira do Brasil, não teve a relevância do Ciclo anterior. Por conta da pecuária, o Engenho de Açúcar e Aguardente (chaminé de 1903, remanescente ao lado do viaduto Nossa Senhora das Graças) foi transformado, em 1925, por iniciativa de importantes fazendeiros locais, na Sociedade de Laticínios Santa Cecília Ltda, para produzir leite pasteurizado congelado e manteiga.
Em 1926 foi criado, definitivamente, o Distrito de Volta Redonda, o oitavo de Barra Mansa
Nesse período foram implantados e depois aperfeiçoados alguns serviços públicos importantes como: iluminação das ruas do povoado/distrito (inicialmente 4 lampiões a querosene nos pontos principais da localidade, depois ampliada); captação e canalização de água potável; comunicação telefônica local, entre outras facilidades.
A partir da década de 1940, a pecuária leiteira foi substituída pelo aço com a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (1941 a 1946) e de todo o entorno urbano, inclusive instalações de serviço e lazer, necessárias para abrigar os operários e técnicos que iriam operar a Usina Presidente Vargas. O aço representou o terceiro momento econômico de Volta Redonda e foi ponto básico do processo de alavancagem do país para a era industrial sendo até hoje ainda a principal atividade do município/cidade que é por isso conhecida como “a cidade do aço”. A empresa foi privatizada em 1993, iniciando uma nova fase na sua história.
Dentre os vários marcos ainda existentes e representativos da evolução histórica da Volta Redonda do café e do leite, dois se destacam: A fazenda Três Poços, em cujas terras funciona hoje o principal campus universitário do UniFOA/FOA, e a fazenda Santa Cecília, que foi desapropriada para a instalação da CSN. As terras desta última propriedade participaram, diretamente, dos três ciclos: café, leite e aço, e a sua bela casa-sede — como a de Três Poços, tombada pelo Patrimônio Histórico Municipal — abrigou por muitos anos as administrações das três atividades mencionadas e isso é o bastante para torná-la especial e impar no contexto das fazendas congêneres de todo o Vale-paraibano.
Em 17 de julho de 1954, após intensa luta emancipacionista, o então 8o Distrito de Barra Mansa conseguiu, através da Lei No 2185, a tão desejada autonomia político-administrativa.
Volta Redonda, município com atualmente cerca de 300.000 habitantes (dado da PMVR), cristalizando um passado de grandes realizações tendo, inclusive, influenciado a economia do Império e a da República com o café e o aço, consolida hoje sua liderança no sul fluminense e abre espaço para continuar expandindo sua presença e sua influência no estado e no país despontando como polo prestador de serviços diversificados em qualidade e tecnologia, em especial nas áreas de saúde e educação.
FAMÍLIAS PIONEIRAS: UMA HOMENAGEM
Um grupo não muito numeroso de famílias foi responsável pelo desbravamento das terras voltaredondenses e pela introdução e desenvolvimento das atividades agropecuárias que marcaram a epopeia cafeeira e a subsequente pecuária de leite ao longo dos primeiros 140 anos.
O grupamento dessas famílias, dentro dos três segmentos produtivos mais representativos do período mencionado: café, transição café/leite e predominância do leite, possibilita a visualização, ainda que em linhas gerais e não de forma exaustiva, das trajetórias que elas seguiram ao longo do tempo e dos posicionamentos que tiveram dentro da geografia das terras locais e das terras limítrofes com os municípios que, várias décadas depois, já emancipada, Volta Redonda viria a confrontar.
Foge ao escopo desta apresentação o estudo genealógico das famílias porém a menção delas poderá ensejar, a quem com elas se identificar, a curiosidade de saber mais e de buscar conhecê-las melhor, o que seria uma forma complementar de homenageá-las pelo esforço que aqui empreenderam e pela riqueza que geraram.
As famílias pioneiras que viveram os primeiros tempos da epopeia cafeeira nas terras locais e nas adjacentes foram: (1) os Monteiro de Barros, que vieram de Minas Gerais, aqui entrelaçados com (2) os Gonçalves de Moraes, com (3) os Souza Breves e, mais adiante, com (4) os Oliveira Roxo, entre outros, e que tiveram seus domínios territoriais no nordeste do município, com prolongamento para o sudeste, nos limites atuais com Pinheiral e Pirai, tendo a fazenda Três Poços como o seu feudo pioneiro e principal; (5) os Monteiro da Silva, em terras do noroeste com prolongamento para os lados de Amparo, sendo a fazenda Boa Vista e Glória a principal; (6) os Vieira Ferraz, que se entrelaçaram com os anteriores, dominaram as terras pela margem esquerda do rio Paraíba do Sul a partir do atual bairro Niterói prosseguindo para o bairro do Retiro e vizinhas e que tinham, ao final do século XIX, a fazenda do Retiro como a mais importante; (7) os Pereira da Silva, no norte do município; (8) os Souza Azevedo, entrelaçados com (9) os Araújo, na área centro-norte, fazenda Volta Grande, com terras no sentido de Pinheiral contíguas às dos Monteiro de Barros, antepassados (10) dos Moreira, até hoje donos da fazenda Cajueiros; (11) os Vargas, no noroeste, em terras vizinhas às de Amparo; (12) os Carvalho, do 1o barão de Cajuru; (13) os Gomes Carvalho, do 1o barão do Amparo, ambas em Amparo, em terras limítrofes com Volta Redonda e (14) os Oliveira, com terras ao sul adentrando o território de Barra Mansa .
Em um segundo momento, já no último quartel do século XIX e já passando pela fase de transição do café para o leite, sucedendo aos pioneiros por legados de herança e dotes de casamento, ainda ocupavam glebas cafeeiras membros das famílias Monteiro de Barros, Vieira Ferraz e Araújo. Conjugando os dois momentos, as duas primeiras famílias foram proprietárias de terras por cerca de 100 anos e a última, com os seus descendentes Moreira, até hoje o é com as terras da já citada fazenda Cajueiros. Ainda dentro desse segmento temporal, mas, possivelmente, por compra de terras, já estavam estabelecidos por aqui: (15) os Alves de Oliveira, também entrelaçados com os Vieira Ferraz, na região do atual bairro Santa Rita do Zarur; (16) os Barros de Amorim, com terras nos limites com Barra do Pirai, região do Turvo, e no centro-oeste do município; (17) os Dias de Oliveira, no noroeste nos limites com Barra Mansa; (18) os Moraes Carvalho; (19) os Nogueira da Silva; (20) os Oliveira Ramos e (21) os Corrêa, todos em terras do centro para o sudoeste pela margem esquerda do Paraíba afastados, entretanto, da sua margem e (22) os Vieira da Cunha Brandão, no norte, nos limites com Barra do Pirai e já adentrando suas terras. Também desta época, ou próxima a ela, (23) os Rodrigues Peixoto, no centro-este, em terras que pertenceram aos Monteiro de Barros, em especial as da fazenda Santa Cecília e (24) os Penna Oliveira em terras que pertenceram aos Moraes Carvalho, antes citados.
Finalmente, entre as famílias que vieram ocupar as terras já na época dos últimos pés de café e que logo foram dominadas totalmente pelo leite — primeiras décadas do século XX — citam-se: (25) os Andrade Junqueira, em terras que depois passaram à CSN na época (26) dos Godoy; (27) os Pereira Leite; (28) os Arantes Vilela, na fazenda Volta Redonda cuja sede é o atual restaurante Casarão; (29) os Assis Pereira, sucessores deles nesta fazenda e também com terras no caminho do Amparo (fazenda São Thiago); (30) os Araújo (de Guarda-Mor), todos mineiros – era o tempo da “2a invasão” – (31) os Fontenelle; (32) os Barreira Cravo (cearenses), com várias fazendas; (33) os Haasis (o patriarca era alemão mas o sucessor mais conhecido, Carlos Augusto, nasceu em Niterói – RJ), na fazenda São Lucas do Brandão; (34) os Roesch, sucedidos (35) pelos Almeida Gama, do 1o prefeito da cidade, na fazenda do Retiro; (36) os Alves Amorim, sucessores dos Barros Amorim e (37) os Cardoso, do lendário coronel Manoel Joaquim Cardoso, que possuindo fazendas aqui, em Barra Mansa e em Valença, era conhecido como o “rei do café” no início do século XX e outras famílias às quais se pede desculpas pela eventual omissão.
Com o crescimento da área urbana do município os negócios imobiliários passaram a ser mais atrativos que o leite e a maior parte das fazendas tiveram suas terras loteadas, algumas foram divididas em chácaras e sítios vendidos a terceiros e poucas mantiveram ainda parte das terras originais. Apenas três ainda existem como propriedades isoladas: Santa Cecília do Ingá, da PMVR, Santa Cecília, da CSN e Santa Thereza, da Saint-Gobain.
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