A Volta Redonda Rural, Caminhos e Descaminhos Históricos e Culturais
A APCBS convidou-me a escrever matéria relacionada às minhas atividades como historiador e genealogista, atividades estas completamente diferentes das que desenvolvi na CSN como sabem os que conviveram comigo naquela empresa.
Ao aceitar o honroso convite, pensei em escrever sobre a Volta Redonda rural, das épocas do café e depois do leite, pois além do tema se encaixar no meu nicho de pesquisa poderia, também, por se tratar de um período pouco divulgado da história local, interessar às pessoas que como eu adotaram a cidade para viver e mais ainda, talvez, às que aqui nasceram.
Contando com a generosidade da Instituição, a ideia original foi expandida para contemplar impressões e considerações de caráter mais geral e serão abordados:
1 – O “desconhecimento” e as consequências para o patrimônio e a memória histórica.
2 – O Ciclo do Café: ascensão e queda; poder e abandono.
3 – Viajando na história de Volta Redonda e homenagem às famílias pioneiras.
4 – Os descaminhos da história Voltaredondense.
Capítulo 1
O “DESCONHECIMENTO” E AS CONSEQUÊNCIAS PARA O PATRIMÔNIO E A MEMÓRIA HISTÓRICA
Há 32 anos pesquiso a história do café e a genealogia das famílias que dela participaram seja no Ciclo pioneiro, que ocorreu ao longo do século XIX — primordialmente em toda a enorme bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, envolvendo terras fluminenses, paulistas e mineiras — seja no “oeste” do Estado de São Paulo, onde o café teve extraordinário desenvolvimento notadamente após a abolição da escravidão (1888), que foi a gota d’água da derrocada do seu cultivo no Vale do Paraíba, embora não tenha sido a sua causa principal.
Por não ter formação em história, ao longo das viagens e pesquisas fui conhecendo e apreendendo cada vez mais sobre o tema e percebendo, também, a falta de interesse que a maioria da população tem por ele, e pior, o descaso do poder público, em todos os seus níveis e áreas de atuação, independentemente de ser o responsável constitucional pela proteção e preservação dos bens históricos e pelo resgate e preservação da nossa memória cultural. O quadro é ainda mais desolador, pois o desinteresse e o pouco caso observados extrapolam os limites da área geográfica que pesquiso constituindo-se em valores culturais e sociológicos do país.
O espanto e a incredulidade que esta realidade me causou, foram perdendo força com o passar do tempo enquanto cada vez mais aumentava a tristeza e o desconforto ao ver crescer as perdas e os danos, quase sempre irreparáveis, causados ao nosso patrimônio e à nossa memória histórica. Todavia, crescia em proporção maior o interesse em me contrapor de alguma forma a este estado de coisas, fosse pesquisando cada vez mais, escrevendo, discursando da forma mais aberta e franca possível sobre os desmandos e, com a organização de um amplo e diversificado arquivo das pesquisas, contribuir concretamente para a perenidade dessa memória histórica colocando-a à disposição de todos os interessados.
Frases conhecidas e verdadeiras como “País sem memória é país sem identidade”, retratam as consequências que este quadro trás para todos nós e para o Brasil, principalmente se compararmos com a posição diametralmente oposta que o tema ocupa em países desenvolvidos onde o conceito de cidadania é plenamente exercido. Entretanto, mesmo com variações de intensidade, tal situação não é desconhecida de qualquer cidadão brasileiro de mediano conhecimento e escolaridade sendo exatamente essas duas condições, pela sua precariedade tupiniquim, o nosso “calcanhar de Aquiles”, usando simbologia com a figura mitológica.
O outro lado da moeda, ou seja, as razões para que o povo, em sentido amplo — população em si e quem ela elege como seus representantes — assim aja, remontam ao tempo do descobrimento e decorrem do nosso processo de “colonização”, da forma como as nossas terras foram ocupadas, utilizadas e governadas, tanto na condição de colônia de Portugal como na de país independente, no império e na república, e das influências que tudo isso trouxe na formação do povo brasileiro, na sua noção de patriotismo, no culto aos seus símbolos e vultos ilustres, no seu entendimento do que é cidadania e nos consequentes valores culturais e sociológicos incorporados ao seu dia-a-dia, assunto que foi examinado, em variados enfoques, por eminentes historiadores e sociólogos como, citando alguns em ordem alfabética, Caio Prado Junior, Celso Furtado, Gilberto Freire e Sergio Buarque de Holanda.
Assim, o Conhecimento — com C maiúsculo, amplo e irrestrito, e antítese do “desconhecimento”, minúsculo e danoso — é variável preponderante no processo, pois com a presença dele talvez as coisas tivessem tomado outro rumo ou, até, quem sabe, pensando positivamente, o quadro com ele possa ter chance de modificação, desde que haja vontade genuína para tal e consciência que será necessário um grande esforço a ser aplicado de forma contínua por várias gerações.
Essas constatações convergem para a história da Volta Redonda rural onde se observa a aplicabilidade das questões colocadas sendo necessário, entretanto, para um melhor entendimento de como as coisas se deram por aqui apresentar — mesmo que em voo de pássaro — o “Ciclo cafeeiro no Vale do Paraíba” e como as propriedades locais dele participaram.
Para tanto, vou me valer, com pequenas alterações, de textos resumidos do livro: “VOLTA REDONDA DO CAFÉ E DO LEITE, 140 Anos de História” que escrevi também para me contrapor ao que se pregava — e que certamente ainda predomina — sobre a história local.
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