A Volta Redonda Rural, Caminhos e Descaminhos Históricos e Culturais – Capítulo 4
Capítulo 4
OS DESCAMINHOS DA HISTÓRIA VOLTAREDONDENSE
Os textos anteriores objetivaram criar embasamento sobre: (i) como os temas memória e patrimônio histórico são tratados no país e na minha área de pesquisa — que inclui Volta Redonda não pela sua história em si, mas como partícipe do “Ciclo do Café Vale-paraibano”; (ii) como se deu este “Ciclo” e (iii) como Volta Redonda se formou, desenvolveu-se com o café, passou pelo período intermediário do leite — com o registro das famílias pioneiras que deram início a essa história — e hoje segue destino ditado pelas transformações econômicas ocorridas.
A partir deles pretende-se, fechando o conjunto, fazer alertas e ponderações com vistas a contribuir para a preservação do patrimônio histórico e o resgate da memória dos períodos pioneiros do café e do leite, tão importantes para Volta Redonda e para o país, embora pouco conhecidos e valorizados pela historiografia local. Sob o aspecto temporal respondem os dois períodos por cerca de 140 anos (1800 – 1940) da história de Volta Redonda, que se completam com os 71 anos do período industrial, a partir de 1941, quando se iniciou a construção da CSN.
Assim, propõe-se desmistificar o equívoco histórico — senão “oficial”, tacitamente aceito e valorizado — que vincula a história de Volta Redonda com a história da Companhia Siderúrgica Nacional, que teriam tido origem comum e, até, contemporânea.
Como nada, ou muito pouco, é feito no sentido de estabelecer a verdade histórica — poderiam ser listados inúmeros exemplos comprobatórios desse “esquecimento”, em palestras, eventos “históricos”, exposições de fotos, informes, símbolos municipais, monumentos, matérias de jornais, TVs etc — tudo indica que essa falsa dicotomia esteja cada vez mais criando raízes na cabeça das pessoas, em especial das mais jovens.
A causa básica desta visão fora de foco é a falta de informação correta a respeito da história antiga da cidade, reforçada fortemente pelo impacto econômico que desde a sua criação a siderurgia produz na cidade que, inclusive, passou por isso a ser conhecida, como já mencionado, como a “cidade do aço”.
Não se pretende com essa colocação minimizar a importância do aço, que foi vital não só para a cidade e para a região, como, também, para a industrialização do país. Tal fato, todavia, não tem relação alguma com a importância que também tiveram as épocas rurais do café e do leite e o valor que esses períodos trouxeram para Volta Redonda, para região e para o Brasil.
Voltando ao mencionado “equívoco”, como esperar que a comunidade orgulhe-se do seu passado, se interesse em falar, defender a sua cultura e a sua história e a preservar os seus bens patrimoniais, se ela não os reconhece como tal por falta de conhecimento, ainda mais em um ambiente em que esses valores não são relevantes e cuidados, como exposto anteriormente?
Como dizia o saudoso mestre Aloysio Magalhães:
“Só preserva quem ama e só ama quem CONHECE”
O resgate da memória rural agregada a do ciclo industrial exibirá uma história rica e abrangente, possibilitará que sejam criadas as condições para que a comunidade voltaredondense sinta orgulho do seu passado e que sejam protegidos, restaurados, conhecidos e respeitados, como importantes marcos históricos, todos os ícones representativos do passado do município como registros expressivos dos seus três períodos econômicos.
Nesse contexto, item relevante a considerar é a homenagem que se poderia prestar às famílias pioneiras que para cá vieram desbravar as terras virgens, plantar sementes de vida e de progresso, do café ao leite, como resumidamente se registrou no capítulo sobre a história local.
Ao lado desses desbravadores, como a ocupação das terras locais se deu com o importante concurso da raça negra — pois toda a produção de café até o final da década de 1880 foi obtida com o trabalho dela — deve ser reconhecido, aplaudido e homenageado esse esforço quando se trata do tema que aborda o conjunto das pessoas que forjaram o núcleo básico da população local.
Desses pioneiros, inúmeros descendentes ainda marcam presença na comunidade e à presença deles se somaram, a partir da década de 1940, outros pioneiros que para cá vieram construir e operar a grande siderúrgica[1] e, da fusão dessas correntes migratórias com imigrantes procedentes de diversos países amigos, surgiu a laboriosa população da cidade.
Todas essas famílias e seus entrelaçamentos merecem reconhecimento quando as terras locais, sob o aspecto “operacional” contando com mais de 210 anos de história, comemoram quase 60 anos de emancipação político-administrativa de Barra Mansa.
Considerando os mencionados aspectos que envolvem o resgate efetivo da memória de Volta Redonda — resgate aqui já entendido em seu sentido global e não somente o usualmente considerado: o período industrial — é imperioso destacar que o esforço envolve todos os segmentos da sociedade organizada, tanto na esfera pública (PMVR e CMVR) como na privada — historiadores, empresários, associações de bairros etc — pois, no fundo, os produtos esperados têm impacto direto na autoestima da população, com todos os benefícios que isso traz para a coletividade, e, o que é ainda mais importante, atua diretamente na consolidação do conceito amplo de cidadania.
Entretanto, a despeito da importância da participação geral, a mola propulsora e coordenadora de todo esse esforço de mudança tem de ser o poder Executivo Municipal — a partir do prefeito municipal, com e através dos secretários das áreas mais ligadas ao tema: Cultura e Educação — pela sua condição, indelegável, de guardião constitucional da memória cultural e do patrimônio histórico e, assim, ao lado do desenvolvimento de ações diretas de governo, conjugando a dicotomia “participação de todos com coordenação centralizada”, é esperada a atitude ativa do executivo aglutinando, estimulando e envolvendo a Câmara Municipal, as instituições da sociedade civil e a população no processo.
São lembrados, por fim, pelas atuações e presenças especialíssimas que devem ter no tema, os responsáveis pelas atividades de ensino, privado e público, estimulando a classe estudantil como um todo e em todos os níveis — face ao grande poder multiplicador que ela possui junto aos responsáveis e afins — a se interessar e a trabalhar temas locais e regionais e a gerar propostas que poderiam contribuir para o desenho de planos e programas de ação no campo cultural, tanto no nível do poder público como da sociedade como um todo.
A esses dirigentes caberia, por exemplo, abrir espaço para trabalhos escolares, pesquisas, monografias, teses de graduação e de pós-graduação voltados a temas ligados ao nosso enriquecimento cultural — substituindo pesquisas que em nada contribuem para isso como se vê muito por aí — além de promover concursos, gincanas culturais, visitas guiadas dos estudantes e de outros públicos aos ícones históricos de todos os “ciclos” aqui enfocados.
A criação de um museu que contemplasse todos os períodos históricos do município seria também muito útil a esse esforço de recuperação e consolidação de memória.
Sob o aspecto turístico, o conjunto como considerado aumentaria os pontos de visitação e a diversidade cultural o que permitiria que fossem formados guias, formatados roteiros de visitas guiadas, gerada propaganda institucional da cidade etc, o que traria estímulos econômicos novos à diversas atividades locais.
Enfim, existem esses e vários outros caminhos e alternativas disponíveis se a variável “QUERER” estiver real e genuinamente presente.
É necessário um compromisso histórico, sob o comando do executivo municipal, com a comunidade que aqui vive e que precisa e tem o direito de conhecer a sua historia, os seus monumentos culturais, o seu passado, de verdade e por inteiro.
É papel de todos viabilizar esse conhecimento como forma de promover cidadania.
Registro aqui minhas homenagens aos pesquisadores que estudaram e estudam a história específica do município e, em especial, ao que a todos representa por ser, na minha ótica, o príncipe da nossa historiografia, José Botelho de Athayde, o conhecido J. B. de Athayde (1916-1974), que foi funcionário da CSN onde se aposentou. Com 10 livros publicados e com cerca de 20 obras inéditas sobre Barra Mansa, Volta Redonda, região e outras cidades fluminenses, deixou um legado expressivo de informações sobre elas e, também, sobre a genealogia de importantes famílias envolvidas e seus mais representativos vultos.
Dos seus livros retirei parte expressiva das informações para a realização desse trabalho.
[1]Uma conclusão curiosa pode-se extrair desse cadinho de formação populacional e refere-se à participação dos mineiros no processo. Uma das correntes migratórias, talvez até a mais relevante, que povoou o Vale do rio Paraíba do Sul a partir do início do século XIX para plantar café, veio das Minas Gerais, mais especificamente das regiões de mineração de ouro que, naquela época, já se encontravam em fase de exaustão. Ao final daquele século ou mais fortemente a partir dos primeiros anos do seguinte, na chamada “2a invasão mineira” (conjugada com pioneiros vindos de outras regiões do Brasil), lá vieram eles com suas boiadas aproveitar os pastos baratos do Vale, em terras esgotadas pela cultura cafeeira, para introduzir por aqui a pecuária leiteira. Coincidência ou não, das várias regiões do Brasil, foi também das Gerais que veio a maior parte da mão-de-obra que foi aqui preparada para as tarefas básicas de construção e de operação da pioneira usina de aço que o governo federal instalou nas terras voltaredondenses o que é atestado, como sabem todos os que aqui vivem, pelo grande contingente de mineiros hoje aposentados da CSN. Assim, sem dúvida, é fator de destaque a participação dos mineiros na formação da população local.
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