Previsão de mudança no perfil de aplicação dos fundos de pensão

Juro menor exige mudança em fundos de pensão

O novo ciclo de queda dos juros que deve começar amanhã pressionará os fundos de pensão a deixarem de lado a postura conservadora em busca de investimentos mais arriscados. Com economistas prevendo recuo na taxa básica (Selic) este ano —há quem fale em 4,75% —, as fundações enfrentam dificuldades para atingir suas metas por meio da tradicional renda fixa.

A consultoria Aditus prevê que, entre 118 fundações com patrimônio de R$ 207 bilhões, R$ 19 bilhões devam sair da renda fixa rumo a investimentos mais arrojados até o fim de 2020. Mas o movimento pode ser ainda mais intenso, já que os maiores fundos de pensão de estatais não estão na conta, e são eles que concentram grande parte dos recursos dessa indústria. Entre as alternativas estão a Bolsa, fundos multimercados e aplicações no exterior.

CONSERVADORISMO

O Comitê de Política Monetária (Copom) deve cortar, amanhã, a Selic de 6,5% para 6%, preveem economistas. O consenso é que os juros terminarão o ano em 5,75%, mas o Bank of America já projeta 4,75%. Espera-se que o novo ciclo quebre a resistência dos fundos a reduzir sua presença na renda fixa.

Desde 2016, quando a Selic estava a 14,25%, a fatia dos recursos dos fundos em renda variável ficou estável, em torno de 18%, de acordo com a Abrapp, associação do setor.

Segundo especialistas, isso ocorreu porque a turbulência política do período aumentou a volatilidade da Bolsa e elevou os juros futuros, tornando os títulos de renda fixa mais vantajosos. Agora, a rentabilidade desses papéis não atende mais às metas dos fundos.

Segundo Guilherme Benites, sócio da Aditus, o desafio é maior nos planos mais novos, já que os mais maduros (de benefício definido, BD) acumularam estoque elevado de títulos públicos com juros atraentes. Entre os planos dos tipos contribuição definida (CD) e variável (CV), a Aditus projeta que a fatia aplicada em renda variável (Bolsa e fundos de ações) cresça de 8,36% para 15% até o fim do ano que vem. O problema é que, nesses planos, muitas vezes o participante pode escolher o perfil de risco da sua poupança.

— Meu receio é que haja participantes mais conservadores que, mesmo tendo 30 anos de acumulação pela frente, não queiram correr risco agora. Ele tem de acumular muito ou verá lá na frente que o que acumulou é insuficiente —alerta Benites.

PREOCUPAÇÃO COM O RISCO

O cenário de juros baixos impõe mudanças até à Previ, maior fundação do país, que tem 46% dos seus recursos aplicados em renda variável. Com a maturidade do seu plano mais antigo, a fundação estava determinada a reduzir a fatia em Bolsa a 30% em sete anos. Só que enfrenta dificuldades para encontrar títulos de renda fixa que paguem juros equivalentes à sua meta atuarial, de 5% mais a inflação. Títulos do Tesouro vencendo em 2045, por exemplo, estão pagando 3,58% mais inflação.

Por causa disso, a Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, freou a estratégia e, por enquanto, mantém a aposta em ações. Ela participou das principais emissões recentes, como da resseguradora IRB e da BR Distribuidora. O plano é aproveitar o bom momento da Bolsa para reduzir a concentração em poucas empresas — 12 companhias respondem por grande parte dos R$ 84 bilhões aplicados pela Previ — e pulverizar os recursos entre vários papéis.

— Queremos ser bastante ativos no mercado de IPO (sigla em inglês para oferta inicial de ações), que deve ganhar volume a partir de setembro com a aprovação de reformas — diz Marcus Moreira, diretor de investimentos da Previ.

Já a Petros, dos funcionários da Petrobras, quer aumentar a aposta em aplicações mais ousadas sem elevar o risco da carteira. Segundo o diretor de Investimentos, Alexandre Mathias, foram criados grupos de trabalho para entender como os fundos patrimoniais de universidades estrangeiras obtêm retornos de dois dígitos mantendo o risco sob controle.

A Petros tem 18% do patrimônio em renda variável, com um teto estipulado em 20%. Agora, a fundação estuda elevar esse limite para se adaptar aos juros mais baixos. Nada foi decidido, mas, segundo Mathias, seria razoável que o teto fosse para 50%, mas com apostas que mitiguem os riscos. O investimento no exterior, por exemplo, por ser feito em dólar, compensaria parte do risco da Bolsa brasileira, já que ações locais e a moeda americana costumam seguir direções contrárias.

— O valor ótimo da alocação em renda variável hoje seria da ordem de 35%, mas juntamente com 9% investidos no exterior como forma de proteção — diz Mathias. — Nós nunca aprendemos verdadeiramente a diversificar fora do real. Hoje, o investimento no exterior representa menos que 1% da indústria.

A RETOMADA DOS FIPS

As fundações têm procurado bancos internacionais para criar fundos de investimento exclusivos para aplicar lá fora, conta Benites, da Aditus. Pelas normas do setor, os fundos podem ter 10% no exterior.

As fundações também cogitam voltar aos Fundos de Investimento em Participações (FIPs), que ficaram marcados pelo escândalo da Operação Greenfield, da Polícia Federal, em 2016. Segundo Renato Villela, diretor-presidente da Funcef, o fundo da Caixa não tem restrições a FIPs e deve retomá-los no futuro.

FONTE: O GLOBO DE 30/07/2019

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